"De leve...inocente...determinado...despercebido...distraído. E outra vez os arrepios...outra vez as sensações..."

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5.12.11

Dar um Tempo...

Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe.
O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos. Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos. 
Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto. Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense. 
Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio. 
É natural explodir.
Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga.
Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas. 
Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença, sem levar ou deixar algo.
Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer. Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.
Dar um tempo é igual a praguejar "desapareça da minha frente". É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo.
É um jeito educado de faltar com a educação. 
Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes. 
Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar, já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance. 
Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou. E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo. Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo. Deveria dar distância, tempo não. 
Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança. 
Dar um tempo é tirar o tempo. 
Dar um tempo é fingido.
Melhor a clareza do que os modos. 
Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir. 
Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus. 
Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.
Resumir a relação a um ato mecânico dói.
Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora. 
Espera-se algo que escape do lugar-comum. 
Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste. Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois. 
Dar um tempo é roubar o tempo que foi. Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. 
Ora, não há maior violência do que dar o tempo. 
É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos. 
É compatível em maldade com "quero continuar sendo teu amigo". 
O que se adia não será cumprido depois.

(do livro "O amor esquece de começar")

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